CBQF em projeto europeu sobre recursos genéticos de leguminosas para sistemas agroalimentares

O laboratório associado Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF), da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, faz parte dos 28 parceiros internacionais de 14 países diferentes que integram o novo projeto de investigação da INCREASE. Analisando os recursos genéticos vegetais de quatro importantes leguminosas alimentares tradicionais europeias (grão de bico, feijão comum, lentilha e tremoço), o consórcio visa desenvolver ferramentas e métodos de conservação eficientes e eficazes para promover a biodiversidade agrícola na Europa. Ao longo de cinco anos, o projeto receberá um orçamento de 7 milhões de euros do programa Horizonte 2020 de investigação e inovação da União Europeia.

O Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF) contribuirá para a avaliação da qualidade nutricional e tecnológica das leguminosas, para a compreensão das bases bioquímicas e fisiológicas da absorção, transporte e armazenamento de nutrientes e para o delineamento de programas de melhoramento genéticos que visarão produtos de qualidade e alimentos mais saudáveis. Ainda, os investigadores do CBQF serão responsáveis pela organização, dinamização, e implementação da experiência de Ciência do Cidadão. Esta atividade testará a viabilidade de uma abordagem participativa, que vai complementar e maximizar o trabalho de conservação de recursos genéticos que tem vindo a ser desenvolvida pelos bancos de germoplasma a nível europeu.

Esta abordagem descentralizada da conservação de biodiversidade contribuirá para aumentar a consciencialização dos cidadãos sobre a importância da biodiversidade e criar uma ponte forte entre os bancos de recursos genéticos e os cidadãos. O trabalho será realizado em feijão (Phaseolus vulgaris L.), a leguminosa mais consumida em Portugal, promovendo a importância histórica do feijão para consumo humano, sustentabilidade e meio ambiente, e enaltecendo o seu papel em dietas mais saudáveis e em sistemas agro ecológicos.

A ingestão de proteínas vegetais está a aumentar em muitas regiões da UE e o mercado das alternativas à carne e laticínios está a ter taxas de crescimento anual de 14% e 11%, respetivamente. Para enfrentar a crescente procura por produtos inovadores e atender às demandas dos cidadãos por alimentos saudáveis ​​e ecologicamente corretos, são necessárias novas variedades, e os recursos genéticos existentes devem ser adequadamente explorados. A caracterização e manutenção dos recursos genéticos das leguminosas, e a sua análise antes dos programas de melhoramento, formam o desenvolvimento central de uma agricultura mais sustentável e de produtos alimentares mais saudáveis. De fato, em 2019, o relatório do IPCC intitulado “Mudanças Climáticas e a Terra” (https://www.ipcc.ch/report/srccl/) indicou que a transição para novas dietas baseadas em alimentos de origem vegetal poderia “apresentar grandes oportunidades de adaptação e mitigação ao gerar co benefícios significativos em termos de saúde humana”. No entanto, especialmente no na área das leguminosas, o investimento e a investigação em melhoramento genético têm sido modestos, levando a um potencial genético amplamente inexplorado dessas importantes culturas alimentares base.

É aqui que o INCREASE pretende abordar sistematicamente as deficiências atuais: com foco no grão-de-bico, feijão, lentilha e tremoço, o projeto implementará uma nova abordagem para conservar, gerir e caracterizar os recursos genéticos, levando a benefícios em diferentes níveis. O projeto promete atrair investimentos públicos e privados adicionais para impulsionar o melhoramento de leguminosas alimentares. Além disso, a disponibilidade e o acesso a coleções de recursos genéticos bem descritos e bem geridos, que capturam toda a gama de espécies e variedades, é de importância crucial para alcançar um nível competitivo em termos de desempenho agronómico e sustentabilidade na UE.

O INCREASE combinará abordagens de ponta em genética e genómica vegetal, fenotipagem de alto rendimento, incluindo fenotipagem molecular (por exemplo, transcriptómica e metabolómica), com avanços mais recentes em tecnologia da informação e inteligência artificial para aumentar a conservação dos recursos genéticos das culturas europeias e promover o seu uso e valorização.

O INCREASE é guiado pelos princípios da Comunidade Europeia de “ciência aberta, inovação aberta e aberta ao mundo” e aproveitará as tecnologias digitais para tornar a ciência e a inovação mais colaborativas e globais. Para esse fim, o projeto testará uma abordagem descentralizada para a conservação de recursos genéticos através da criação de uma experiencia de Ciência do Cidadão. “No início de 2021, iremos distribuir mais de 1.000 variedades diferentes de feijão comum a cidadãos e agricultores europeus para serem avaliadas no seu campo, horta ou terraços” comenta Marta Vasconcelos, a coordenadora das atividades do projeto no CBQF. Os cidadãos obterão conhecimento sobre a biodiversidade de leguminosas, envolver-se-ão ativamente nas atividades de avaliação e conservação e na partilha e troca de sementes através de uma nova estrutura legal e por meio de uma aplicação desenvolvida especificamente para o INCREASE. Esta é também uma grande inovação para a comunidade, para partilha de benefícios e para promover o uso correto dos Recursos Genéticos Vegetais.

O consórcio interdisciplinar do INCREASE abrange uma variedade de conhecimentos, incluindo genómica de plantas, bioinformática e análise de dados, bioquímica, tecnologia da informação, agronomia, gestão, conservação e partilha de recursos genéticos.

junho 2020